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Caderno de Amélia de Valois Gouge

Caderno de Amélia de Valois Gouge

13
Jun25

Senhor de Matosinhos

Ontem, estive o dia todo fora de casa a tratar de assuntos que fui empurrando até ao limite. Para mim, estar fora de casa significa não estar a trabalhar, apesar de tudo o que me rodeia ser possibilidade de inspiração. Enfim, tenho de ver o lado bom e pensar que também pode ser profícuo este recolher de rede de pescador que lanço assim que saiu da porta da minha casa. Mas, a verdade, é que efetivamente não fiz nada a não ser tratar de assuntos e, mesmo assim, dois ficaram por resolver.

Depois, o dia terminou com um concerto de música dos meus sobrinhos gémeos mais velhos. Foi belíssimo. Vê-se que é uma escola exigente que não existe para agradar nem aos pais nem aos alunos, está exclusivamente ao serviço da música e de quem quer aprender com empenho e gosto. Visto que o concerto foi no centro de Matosinhos e de a festa do Senhor de Matosinhos ainda se prolongar apesar do feriado ter sido na terça-feira, os gémeos que atuaram pediram para ficarmos a jantar por ali. O meu irmão e a mulher, com o par de gémeos mais pequenos ao colo, disseram ser impossível, então, os meus sobrinhos encontraram logo solução: «os tios levam-nos a jantar».

O N. detesta, odeia, abomina, ou qualquer outro sinónimo, festas populares, mas o ambiente ainda estava calmo e, no trabalho, falaram-lhe de uma “barraquinha muito boa”. Quando lá chegamos, a fila já tinha, apesar de serem 20 horas, dois metros de comprimento, então, colocamo-nos numa fila muito mais pequena, mas digna, de uma barraca ao lado com ementa similar: pão com chouriço, cachorro quente e bifanas. Os gémeos comeram os seus cachorros quentes de uma ponta à outra em silêncio o que, para crianças, só significa uma coisa: estavam deliciosos.

Depois de jantarmos numa mesa que conseguimos “apanhar”, eu e o N. fomos levamos pelas mãos destas crianças astutas até uma barraca que vende «Labubus verdadeiros, que vêm dentro de caixas fechadas, em vez dos falsificados que se vendem na internet». Questionei-me como é que crianças tão pequenas têm este tipo de preocupações e lembrei-me que as escolas também podem ser sítios perigosos, é onde se aprende desde cedo este tipo de futilidades. Lá demos dez euros por cada caixa em que não se sabe a cor de Labubus sairá e parece que «é mesmo assim, tia, isso é que tem graça». A um dos gémeos saiu um da cor amarela e ao outro um da cor cinzenta. No primeiro minuto, cada um adorou a sorte que lhe calhou, depois, quiseram trocar entre eles, logo a seguir, um deles arrependeu-se da troca mas o irmão não quis ceder, e, finalmente, fomos salvos por um palhaço que andava pelas ruas à procura de crianças, enfim, a fazer pela sua vida. Perguntou-nos se podia fazer balões para os nossos filhos e, depois de ficar a saber que éramos tios, comentou que era a mesma coisa. Não é a mesma coisa, pensei, só estamos com eles quando queremos e é possível.

Cada um dos miúdos escolheu a cor do balão e o palhaço, felizmente, fez duas espadas exatamente iguais. Por fim, o homem apertou a mão a cada criança, a minha e a do N.. Sem estar satisfeito, apertou literalmente o nariz a cada criança ao mesmo tempo que apertou com a outra mão uma pequena buzina e, depois, fez o mesmo connosco, pele com pele, uma mão que já tinha passado por dezenas de mãos e de narizes, e ainda passaria por muitos mais, afinal a noite ainda estava a começar. Aquela tinha sido a primeira e a última vez em que o N. tinha estado na festa do Senhor de Matosinhos, pensei para mim, e eu nem tinha o desinfetante que anda sempre comigo na carteira, provavelmente deixei-o no carro logo no dia em que mais precisamos dele. O semblante do N. mudou, estava na hora de regressarmos a casa e a roda gigante não teve a menor das hipóteses. Foi um serão divertido entre os quatro até fazermos parte de uma cadeia de recolha e transmissão de vírus pelas mãos daquele palhaço à qual não fazíamos qualquer intenção de pertencermos.

Desde pequena que fui habituada a este tipo de festas, os meus pais tanto nos levavam a festas populares como a recitais no Palácio de Queluz, por isso, não me fazem confusão. Mas, a verdade é que nesta festas pagãs com nome de Santos come-se mal no sentido de a comida não ser saudável e há um apelo incessante ao consumismo disfarçado de diversão, enfim, não se aprende nada. Quem gosta que aproveite, quem não gosta não tem de fazer o favor a ninguém nem fazer de conta que se diverte. Provavelmente não voltaremos a esta festa, ou a outra do género, a não ser que o acaso nos leve até ela como esta noite.

No carro, desinfetamos as pequenas mãos das crianças com álcool que levavam todas contentes as suas espadas de balão e os seus Labubus, e senti ter cumprido o meu dever, tinham no currículo da sua infância uma ida a uma festa popular. Depois de entregues aos pais, bebemos chá de gengibre em casa e deitamos debaixo da língua glóbulos de Oscillococcinum. Após estes cuidados compreensíveis e que nos reforçaram o conforto psicológico até mais do que o imunológico — cientistas indicam que andam lado a lado —, houve diversão, daquela que gostamos, os dois no sossego da casa, entre a música, as palavras e o toque de que gostamos, porque cada um tem direito à festa que lhe enche a alma do que lhe faz realmente feliz.

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Amélia de Valois Gouge é um heterónimo da escritora Ana Gil Campos.