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Caderno de Amélia de Valois Gouge

Caderno de Amélia de Valois Gouge

08
Out25

Fim de semana

Já me estou a habituar novamente aos dias só meus. A solidão triste transforma-se em solidão confortável. Depois de um fim de semana em que eu e o N. estivemos grande parte do tempo de um lado para o outro a tentarmos encontrar coisas necessárias e a arrumarmos as coisas em casa, parece que agora o tempo parou, parece que estou num espaço sem tempo. Tentamos encontrar o essencial e com bom preço em armazéns de antiguidades, o que se mostrou tarefa difícil, mas conseguida. Não quis o apartamento mobilado, estava repleto de coisas carregadas de energia de quem aqui vivia. Contudo, gosto de objetos antigos, com história, diferentes, com personalidade, mesmo que tenham andado de mão em mão. Sei que parece um absurdo, mas quando os objetos usados vêm parar às lojas é como se perdessem toda a energia de quem lhes fez uso, como se fossem descarregados, não passam diretamente das mãos de uns para outros, parece que sofrem uma espécie de higienização energética. Por isso, comprei uma mesa de jantar e quatro cadeiras em madeira com ângulos que diria terem sido inspirados no cubismo, um candeeiro de teto que parece o sistema solar em vidro verde água para o espaço da mesa de jantar, um cabide simples para a entrada, um banco corrido de palhinha que agora não sei se fiz bem comprar — não sei se terá utilidade —, um sofá de três lugares em veludo verde que se parece com uma cama de gato ou de cão em tamanho grande e que é o sofá mais confortável onde me sentei até agora, um jarro em vidro com desenho de peixes em azul platino que no sábado me pareceu lindo, mas que hoje já não sei o que pensar dele, uma secretária pequena para a sala pequena mas com o espaço suficiente e que parece ter sido feita à medida da janela onde já está encostada — falta a cadeira, usarei uma das cadeiras da mesa de jantar até encontrar uma para aqui —, e duas mesas-de-cabeceira para a cama que ainda não chegou. Dormimos no chão, o que para o N. não poderia ter sido mais romântico, tem a capacidade de ver o belo, o lado bom de tudo.

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Amélia de Valois Gouge é um heterónimo da escritora Ana Gil Campos.