Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Caderno de Amélia de Valois Gouge

Caderno de Amélia de Valois Gouge

30
Jun25

Aniversário

Sábado estive a organizar o aniversário do N.. Tentei reservar a mesa no restaurante que queria, mas fecha ao domingo. Do outro lado do telefonema responderam: “peço desculpar por estarmos fechados, mas o nosso descanso semanal é ao domingo”. Depois, na pastelaria, informaram-me que tinha de levantar o bolo nessa tarde porque no dia seguinte estariam fechados e, exatamente com as mesmas palavras, disseram: “peço desculpar por estarmos fechados, mas o nosso descanso semanal é ao domingo”. Não têm de pedir desculpa, pelo contrário, respeito os empresários que têm coragem de fecharem aos domingos, é tudo uma questão de educar os hábitos. O almoço foi em casa do N., feijoada à brasileira feita por nós que estava deliciosa para qualquer português, provavelmente assim-assim para um brasileiro. Mas foi um dia feliz, estivemos amáveis uns com os outros e esse é o ingrediente principal para qualquer encontro familiar.

27
Jun25

Já falta pouco

O mês de junho não tem sido fácil para mim, tem sido um desafio para a minha própria gestão emocional devido a fatores externos. Houve dias em que me aconteceram coisas incríveis e outros em que as circunstâncias e algumas pessoas me causaram frustração. Tenho sido uma bola de pingue-pongue entre a alegria e a tristeza e só quero sair deste jogo. Que estes últimos quatro dias passem depressa.

26
Jun25

Rua cortada

Tive de sair de casa e aconteceu-me uma coisa caricata. As coisas caricatas acontecem, habitualmente, fora de casa. A estrada em frente ao meu portão da garagem é estreita, apesar de ser permitida a circulação de carros nos dois sentidos, por isso, tem de haver sensatez por parte dos moradores. Neste caso, não a houve por parte do condutor de uma carrinha de entregas que estava parado em frente à casa do meu vizinho do lado. Estando a rua bloqueada num dos extremos devido à estrada perpendicular estar em obras, só poderia sair no outro sentido, por isso, assim que sai da garagem fiquei de frente para a carrinha. O homem da empresa transportadora disse qualquer coisa com agressividade agitando os braços. Enfim, tive de sair do carro para lhe dizer que a estrada no sentido para onde tinha virada a carrinha está bloqueada. «Não dá para passar?», perguntou. «Não», respondi e poderia ter acrescentado que a resposta é óbvia pela grande retroescavadora parada a 150 metros dali e, estando sentado a um nível superior a qualquer carro ligeiro, tem melhor visibilidade. Mas guardei estas considerações para mim, é sempre mais prudente não se dizer tudo o que pensamos. Por fim, o homem saiu de marcha atrás e eu segui com a minha vida. Fiquei a pensar, era um homem agressivo, sem qualquer ponderação e respeito por quem encontra pela frente, e eram 9h15, o dia ainda estava a começar.

25
Jun25

Eventos

O mês de junho tem sido repleto de eventos sociais, não estou habituada, pelo contrário. Só nos últimos quatro dias foram três e ainda faltam mais três até o mês acabar. Gosto de conviver, procuro comunicar com as pessoas, sou recetiva a quem se dirige a mim, mas depois vejo e sinto as subtilezas e isso não me faz bem. Nos intervalos de milésimos de segundos entre a comunicação visual há a impercetível e, para mim, esta é tão ou mais visível do que a óbvia e fico cansada emocionalmente. Esta sensibilidade para com as subtilezas, chamar-lhe-ei assim, é muito útil para os meus livros — e talvez seja por isso que, de forma calculista, mas ao mesmo tempo inconsciente, me predisponha àquilo a que se chama de convívio social —, mas é esgotante e, por vezes, frustrante quanto ser individual. Prefiro o recato da minha casa, os amigos de sempre, a família íntima, prefiro o meu aquário natural de água salgada. Aventuro-me muitas vezes no mar porque tem de ser ou porque faço por isso, mas a minha casa, onde me sinto bem, é o meu aquário feito de rochas, uma espécie de limites geográficos que me protegem dos meus próprios sentidos.

18
Jun25

Sinopse

Estive a escrever a sinopse do meu novo romance o que, para mim, é mais difícil do que escrever um livro com quase 400 páginas.

Entretanto, a minha gata voltou a deixar no tapete ramos da suculenta. Já começo a ter pena da planta.

Neste momento, procuro uma folha com dados importantes e não há como a encontrar. É só uma folha A4, onde se poderá ter escondido, isto é, onde a fui guardar e apagar o local da minha memória?

17
Jun25

Presentes à porta

A minha gata tem-me deixado presentes à porta. Está quase a fazer cinco anos, nasceu em plena pandemia. Estas oferendas têm sido recentes. O primeiro presente foi um pequeno ramo de um grande vaso que tenho à entrada com uma suculenta que parece uma árvore. Não sei se foi um ramo que caiu ou se a minha gata o foi arrancar com uma das patas. O segundo presente foi entregue ontem, no meio do tapete da entrada, tal como da outra vez e, novamente, outro ramo da mesma planta. Agradeci, fiz-lhe uma festa e recolhi-os para um copo que fiz de jarro onde tenho os dois pés da suculenta em água. Enquanto me oferecer plantas, são presentes de princesa, da princesa Maria Joaquina. Já apanhou três animais do jardim, que permaneceram vivos, mas isto são outras histórias, três histórias distintas.

16
Jun25

Não é feio

Há pouco, comprava um presente para uma amiga numa pequena loja de anéis, colares e brincos. Estavam ao meu lado duas mulheres, talvez mãe e filha, e a mais nova parecia estar a ajudar a outra a escolher uma peça. Quando apontava para alguma coisa dizia: «não é feio». Repetiu «não é feio» de cada vez que alguma coisa a chamava a atenção até que, felizmente, se foram embora, não me estava a conseguir concentrar. Escolhi um fio delicado com um pingente redondo de pedra semipreciosa verde — a vendedora não me soube dizer o nome da pedra.

Depois, fiquei a pensar no critério daquela mulher que se encontrava na loja, «não é feio». Uma coisa que não é feia não significa o seu contrário, isto é, que seja bonita. Não é feio remete ao suficiente. Não é feio, mas também não é bonito, serve. Será que o critério para muita coisa, não será este? Interessa apenas que sirva. Não é feio, não é mau, não é fraco… O critério nivela-se pelo medíocre, mas talvez o medíocre se esteja a nivelar cada vez mais por baixo e, assim, aquilo que se pensa ser bom não é assim tão bom, serve. Talvez ser muito bom, agora, já não interesse, não é comerciável, procurado, vendido, as pessoas já se desabituaram ao muito bom. Vende-se aquilo que «não é feio», aquilo que serve.

13
Jun25

Senhor de Matosinhos

Ontem, estive o dia todo fora de casa a tratar de assuntos que fui empurrando até ao limite. Para mim, estar fora de casa significa não estar a trabalhar, apesar de tudo o que me rodeia ser possibilidade de inspiração. Enfim, tenho de ver o lado bom e pensar que também pode ser profícuo este recolher de rede de pescador que lanço assim que saiu da porta da minha casa. Mas, a verdade, é que efetivamente não fiz nada a não ser tratar de assuntos e, mesmo assim, dois ficaram por resolver.

Depois, o dia terminou com um concerto de música dos meus sobrinhos gémeos mais velhos. Foi belíssimo. Vê-se que é uma escola exigente que não existe para agradar nem aos pais nem aos alunos, está exclusivamente ao serviço da música e de quem quer aprender com empenho e gosto. Visto que o concerto foi no centro de Matosinhos e de a festa do Senhor de Matosinhos ainda se prolongar apesar do feriado ter sido na terça-feira, os gémeos que atuaram pediram para ficarmos a jantar por ali. O meu irmão e a mulher, com o par de gémeos mais pequenos ao colo, disseram ser impossível, então, os meus sobrinhos encontraram logo solução: «os tios levam-nos a jantar».

O N. detesta, odeia, abomina, ou qualquer outro sinónimo, festas populares, mas o ambiente ainda estava calmo e, no trabalho, falaram-lhe de uma “barraquinha muito boa”. Quando lá chegamos, a fila já tinha, apesar de serem 20 horas, dois metros de comprimento, então, colocamo-nos numa fila muito mais pequena, mas digna, de uma barraca ao lado com ementa similar: pão com chouriço, cachorro quente e bifanas. Os gémeos comeram os seus cachorros quentes de uma ponta à outra em silêncio o que, para crianças, só significa uma coisa: estavam deliciosos.

Depois de jantarmos numa mesa que conseguimos “apanhar”, eu e o N. fomos levamos pelas mãos destas crianças astutas até uma barraca que vende «Labubus verdadeiros, que vêm dentro de caixas fechadas, em vez dos falsificados que se vendem na internet». Questionei-me como é que crianças tão pequenas têm este tipo de preocupações e lembrei-me que as escolas também podem ser sítios perigosos, é onde se aprende desde cedo este tipo de futilidades. Lá demos dez euros por cada caixa em que não se sabe a cor de Labubus sairá e parece que «é mesmo assim, tia, isso é que tem graça». A um dos gémeos saiu um da cor amarela e ao outro um da cor cinzenta. No primeiro minuto, cada um adorou a sorte que lhe calhou, depois, quiseram trocar entre eles, logo a seguir, um deles arrependeu-se da troca mas o irmão não quis ceder, e, finalmente, fomos salvos por um palhaço que andava pelas ruas à procura de crianças, enfim, a fazer pela sua vida. Perguntou-nos se podia fazer balões para os nossos filhos e, depois de ficar a saber que éramos tios, comentou que era a mesma coisa. Não é a mesma coisa, pensei, só estamos com eles quando queremos e é possível.

Cada um dos miúdos escolheu a cor do balão e o palhaço, felizmente, fez duas espadas exatamente iguais. Por fim, o homem apertou a mão a cada criança, a minha e a do N.. Sem estar satisfeito, apertou literalmente o nariz a cada criança ao mesmo tempo que apertou com a outra mão uma pequena buzina e, depois, fez o mesmo connosco, pele com pele, uma mão que já tinha passado por dezenas de mãos e de narizes, e ainda passaria por muitos mais, afinal a noite ainda estava a começar. Aquela tinha sido a primeira e a última vez em que o N. tinha estado na festa do Senhor de Matosinhos, pensei para mim, e eu nem tinha o desinfetante que anda sempre comigo na carteira, provavelmente deixei-o no carro logo no dia em que mais precisamos dele. O semblante do N. mudou, estava na hora de regressarmos a casa e a roda gigante não teve a menor das hipóteses. Foi um serão divertido entre os quatro até fazermos parte de uma cadeia de recolha e transmissão de vírus pelas mãos daquele palhaço à qual não fazíamos qualquer intenção de pertencermos.

Desde pequena que fui habituada a este tipo de festas, os meus pais tanto nos levavam a festas populares como a recitais no Palácio de Queluz, por isso, não me fazem confusão. Mas, a verdade é que nesta festas pagãs com nome de Santos come-se mal no sentido de a comida não ser saudável e há um apelo incessante ao consumismo disfarçado de diversão, enfim, não se aprende nada. Quem gosta que aproveite, quem não gosta não tem de fazer o favor a ninguém nem fazer de conta que se diverte. Provavelmente não voltaremos a esta festa, ou a outra do género, a não ser que o acaso nos leve até ela como esta noite.

No carro, desinfetamos as pequenas mãos das crianças com álcool que levavam todas contentes as suas espadas de balão e os seus Labubus, e senti ter cumprido o meu dever, tinham no currículo da sua infância uma ida a uma festa popular. Depois de entregues aos pais, bebemos chá de gengibre em casa e deitamos debaixo da língua glóbulos de Oscillococcinum. Após estes cuidados compreensíveis e que nos reforçaram o conforto psicológico até mais do que o imunológico — cientistas indicam que andam lado a lado —, houve diversão, daquela que gostamos, os dois no sossego da casa, entre a música, as palavras e o toque de que gostamos, porque cada um tem direito à festa que lhe enche a alma do que lhe faz realmente feliz.

11
Jun25

Camões

Ontem, dia 10 de Junho, Lídia Jorge, vestida com a sua inteligência, fez um discurso duro, frontal, corajoso e realista. A dada altura questionou: «Quando ficarem em causa os fundamentos institucionais, científicos, éticos, políticos e os pilares de relação de inteligência homem-máquina entrarem num novo paradigma, que lugar ocuparemos nós como seres humanos? O que passará a ser um humano?» Depois, afirmou: «Um ser humano é um ser de resistência e de combate, é só preciso determinar a causa certa.»

A cultura é isto: confronta-nos com a realidade, eleva, ilumina, também pode envergonhar alguns, torna-nos mais humanos, lembra-nos o que é ser humano.

Viva, Camões, pelo património cultural, pela força e inteligência que nos corre no sangue. Que lhe dêmos bom uso.

06
Jun25

Ministério da cultura

Gostei do apartamento. Gostei muito. Gostei ao ponto de ter pago um pequeno valor que me permite tomar a decisão até segunda-feira.

Entretanto, fiquei a saber que o ministério da cultura em Portugal foi extinto e extinta parece ser a inteligência e discernimento de quem governa. Ou talvez não. O mesmo governo com reforço à direira ganhou apenas mais poder para decisões como esta, uma decisão insolente para quem sabe efetivamente qual é o papel da cultura na sociedade. Porventura quem tomou esta decisão conhece a força da cultura e, assim, talvez a tema, então tenta remetê-la a uma espécie de festival pimba de verão com patrocínio de uma grande marca de supermercado com o objetivo de agradar e estupidificar o povo. É esta a “cultura” que temos.

Pág. 1/2

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

O conteúdo deste blogue está protegido pela Inspeção Geral das Atividades Culturais. Qualquer reprodução dos conteúdos aqui presentes requer uma autorização prévia por parte da autora.

Arquivo

  1. 2026
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2025
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
Amélia de Valois Gouge é um heterónimo da escritora Ana Gil Campos.