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Caderno de Amélia de Valois Gouge

Caderno de Amélia de Valois Gouge

27
Mai25

Lado bom

Descobrir o sol entre as nuvens de um contratempo é ver o lado positivo de algo que parece um embate, um beco. Encontrar um diamante dentro de um quarto escuro é deixar de escorregar na lama sem se conseguir levantar dela, é olhar para a pequena pedra preciosa e deixarmo-nos levar pela sua luz. Muda tudo. Há sempre um diamante em qualquer lado à espera que se repare nele.

26
Mai25

Domingo

Ontem, eu e o N. estivemos na Casa de São Roque para assistirmos a um pequeno concerto de música clássica. Reservamos o almoço e um copo de alvarinho. Chegamos cinco minutos antes do concerto começar, sentamo-nos em duas cadeiras sobre o relvado, com o almoço no colo, o copo na mão. A música começou. O que mais se pode desejar para um domingo?

23
Mai25

Paz de espírito

Esta manhã, fui fazer dois pagamentos à caixa multibanco dentro de uma loja de conveniência de uma bomba de gasolina. Depois de fazer os pagamentos, parei em frente ao escaparate das revistas e jornais para ler os títulos. Afastei uma revista com a mão para conseguir ler a capa de outra revista que estava por trás. Com isto, deixei cair ao chão as revistas que estavam à frente dessa e reparei que, ao mesmo tempo, caiu qualquer coisa entre o escaparate e o vidro da loja. Perguntei ao homem que estava ao meu lado se tinha alguma coisa pousada em cima das revistas porque me pareceu ter caído alguma coisa por trás do escaparate. Com ar mal encarado disse-me que sim. Fui espreitar e disse-lhe: «caíram dois envelopes». Resmungou qualquer coisa que não entendi e pensei para mim que o topo de revistas num local público não é sítio para pousar envelopes pessoais. Além disso, se não lhe tivesse dito nada, nem se tinha apercebido. Apesar da antipatia do homem, que permaneceu inerte, fui dizer à menina da caixa que havia um senhor a precisar de uma vassoura para retirar dois envelopes que tinham caído atrás do escaparate das revistas e saí da loja a sentir que cumpri com o meu dever.

Por vezes, tenho encontros rápidos com pessoas mal encaradas que me poderiam tirar a alegria ou a serenidade, e há dias em que pessoas assim parecem suceder-se umas a seguir às outras. Mas aprendi a desvalorizar, a manter o sorriso mesmo assim, a agradecer à gentileza de quem se cruza comigo sem dar demasiada importância a esses casos também, a manter o ânimo naquilo que se pode considerar o ponto de equilíbrio. É algo que se treina e o treino consiste em estar focada na minha própria vida sem perder a gentileza e o bom senso, em conservar a paz de espírito, em bloquear intencionalmente o estado de espírito do outro para proteger o meu. Sorrir, sorrir sempre, sorrir para o dia, sorrir para a vida.

22
Mai25

Dia do Autor Português

Hoje é Dia do Autor Português. Neste momento, ser autor português assume uma pluralidade de definições. Ainda bem, para alguns, uma desgraça, para outros. O mais importante, para mim, é que defendam os direitos humanos e promovam o pensamento crítico através dos seus meios, seja através da escrita, da pintura, da escultura, da música, do design, da ilustração, etc. Eu espero honrar o meu papel enquanto autora e agradeço a todos que respeitam e acarinham o meu trabalho.

21
Mai25

Agenda

Hoje, começam os espetáculos infantojuvenis da minha família que terminarão no fim do mês de junho. A minha agenda não tem espaço para mais nenhum compromisso social.

20
Mai25

Casulos

Há alguns dias, vi uma larva muito verde, com a beleza digna de um livro infantil, a subir o vidro da janela da cozinha, em frente ao lavatório. Depois, parou, deixou-se ficar ali. Passaram-se algumas horas e ela permanecia no mesmo sítio. Questionei-me se teria morrido ao sol ou se teria decidido fazer ali o seu casulo. Em poucos dias, fez ali o seu pequeno casulo castanho esverdeado. Agora, espero pela surpresa, espero estar presente na libertação da sua metamorfose. Reparei há pouco, que no teto da entrada de casa, do lado de fora, também está outro casulo muito parecido com o do vidro. Acompanharei de perto os seus processos, curiosa por saber que tipo de borboletas sairão dali.

19
Mai25

Tristeza

O resultado destas eleições é muito triste para a democracia portuguesa e para um eleitor razoavelmente instruído. Mais do que o reflexo dos políticos que temos, é o reflexo dos portugueses que somos neste momento. Quanta ignorância!

Que triste e incerto este futuro. Tenho vontade de passar uns meses em Paris, de fugir de tanta estupidez apesar de ser mundial e de se alastrar como uma epidemia.

16
Mai25

Pele

Despia-me para vestir o pijama, mas deixei-me cair de cansaço na cama aberta. Tinha apenas a luz ténue do candeeiro ao meu lado e o sossego. Foi assim que senti a minha pele, toda a minha pele, há muito tempo que não a sentia assim, através de mim. Com a doçura dos lençóis encostada à pele nua, mexi as pernas e os braços como se nadasse numa piscina de água densa e morna. Constatei que passo dias inteiros a usar o meu corpo sem o sentir, uso-o mas não o sinto. A partir de agora, entre despir e vestir o pijama, deixar-me-ei cair na cama, num abraço suave com a própria pele nua.

15
Mai25

Festas do final do ano letivo

O fim do ano letivo está a chegar e já recebi todos os convites para as inúmeras festas de cada um dos meus nove sobrinhos. Como a experiência, em princípio, ensina alguma coisa, este ano selecionarei apenas uma festa de cada um deles e a que me parece menos amadora. São essencialmente concertos de música, espetáculos de ballet, dança contemporânea e peças de teatro. É bonito vê-los crescer bem, perceber que são crianças curiosas e felizes.

Ainda há pouco tempo pegava nos mais velhos ao colo, muito leves, as pálpebras húmidas, apertavam os meus dedos com as suas mãos como pinças e, agora, projetam a voz num palco ou tocam pequenas peças de piano com a firmeza de quem sabe o que faz. É bom vê-los crescer felizes pelo simples facto de serem quem são e de entenderem que já têm tudo o que precisam dentro deles, de terem a atenção virada para dentro, para a própria essência.

14
Mai25

Título

Começo a pensar no título para o romance que acabo de escrever, é a última coisa em que penso. Há quem comece um livro através de um título, talvez funcione como o som de um apito antes da partida. O meu apito é uma espécie de pirilampo que ilumina uma ideia dentro do meu cérebro que vai fermentando dia após dia até se materializar através da escrita. Depois de mais de duzentas páginas escritas, procuro o título certo que abra a porta ao conteúdo. Não é fácil.

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Amélia de Valois Gouge é um heterónimo da escritora Ana Gil Campos.