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Caderno de Amélia de Valois Gouge

Caderno de Amélia de Valois Gouge

08
Mar26

Grupo de mulheres

Uma vez por semana, passo a manhã num café de um casal francês, têm baguetes e croissants como eu gosto. Na manhã desta semana, quando lá cheguei, estava reunido um grupo grande de mulheres, noutra mesa estava um grupo mais pequeno de mulheres também. O grupo maior era essencialmente constituído por americanas — uma delas fazia anos nesse dia, cantaram-lhe os parabéns com uma vela acesa sobre uma batia de bolo de chocolate —, brasileiras e italianas, falavam inglês entre elas. Conversavam alegremente, com sinceridade no olhar, gentileza entre elas, partilhavam ora coisas banais ora coisas mais profundas. O grupo mais pequeno, sentado numa mesa da esplanada, era constituído por três mulheres que tinham duas coisas óbvias em comum. Uma das coisas era o botox aplicado nos rostos o que fazia com que sendo tão diferentes entre elas se parecessem ao mesmo tempo. A outra coisa em comum era o telemóvel entre as mãos, a conversa era à volta da partilha de fotos e comentários de outros nas suas próprias redes sociais, pairava um vazio sobre a mesa. Entre os dois grupos de mulheres havia várias diferenças notáveis. Eu estava sozinha, numa mesa do interior junto à janela, e se me dissessem para escolher um grupo para me juntar, não teria dúvidas, seria o mais saudável, simples e alegre.

 

Nota: aos sábados e domingos, estarei por aqui.

07
Mar26

António Lobo Antunes

Na Quinta-feira, acordei com uma notícia triste. Lobo Antunes faleceu. Ainda há três dias, o meu pai estava com um livro dele entre as mãos. Comentei que gostava muito daquele livro de contos. O meu pai refutou tratar-se de um livro de crónicas. «São crónicas? Para mim são contos», disse. «Mas são crónicas», respondeu-me. «São crónicas em forma de contos», não quis desistir da minha ideia. «Um e outro temos razão», acabei por afirmar. Depois, peguei no livro, e constatei ser de crónicas, mas a minha memória tinha-o guardado como se fosse um livro de contos. Quando um escritor faz parte das conversas de casa, é uma pessoa da família, da nossa família literária. Morreu uma pessoa da família, não sendo da nossa família, mas é reconfortante saber que o reencontro se dará na leitura dos seus livros, que continuará por casa como antes.

01
Mar26

Primeiras páginas

Na sexta-feira, escrevi o primeiro capítulo do meu novo livro. Depois de meses a refletir na nova ideia, de o novo romance se ir escrevendo sozinho no meu cérebro, e de, ao mesmo tempo, me esvaziar de tudo até desesperar com o ócio, na sexta-feira, acordei com uma urgência física de o começar a escrever. Depois de terminar o primeiro capítulo, senti-me absolutamente feliz, apesar de serem apenas as primeiras páginas de muitas, é como se tivesse dado apenas o primeiro passo para escalar o Evereste, mas para dar os seguintes passos o primeiro é sempre importante, e, só por isto, senti toda a felicidade. Isto só significa uma coisa, a partir de agora, o meu cérebro e o meu tempo estarão unicamente ao serviço do meu próximo romance, o motivo que me fará levantar da cama a todos os dias.

28
Fev26

Aniversário

No domingo passado, foi o meu aniversário. Decidi fazer um almoço com a família direta em minha casa. Fui buscar vitela assada a um restaurante em Matosinhos que estava macia e muito saborosa, mas a melhor parte foi não ter sido cozinhada por mim, isto foi ainda mais delicioso. Almoçamos mais tarde do que o previso, apesar de ser expectável, não há um encontro de família em que o meu irmão Luís não chegue atrasado.

Como o dia me presenteou com sol e temperatura amena, depois do almoço e da cozinha arrumada, fomos dar um passeio a pé pelo passadiço junto à praia. As crianças não se mostraram satisfeitas com a ideia de saírem de casa, mas depois lá se divertiram pelo caminho. Vieram os meus nove sobrinhos, menos a bebé porque estava doente, filha mais nova do meu irmão Luís, que teve de ficar em casa com a mãe e mulher dele. No entanto, o Luís apareceu em minha casa com Lara, a segunda mulher dele, o que causou confusão e alegria ao mesmo tempo à minha mãe que a adora e, sem nunca o ter dito, é notoriamente a nora preferida que o seu primogénito lhe deu. Imagino que a bomba explodirá mais cedo do que esperava e que, um dia destes, apareçam a informar que reataram.

Depois do passeio a pé, regressamos a casa e cantamos os parabéns. Fiz 46 anos. É uma idade que me parece projetar para uma seriedade da vida, mas, ao mesmo tempo, tive muito orgulho de os fazer. Tenho genuinamente orgulho dos meus 46 anos.

Acabamos por fazer um lanche ajantarado e, pelas 22 horas, já tinha a casa e o N. só para mim. Voltamos a cantar os parabéns só os dois, numa festa só nossa.

No dia seguinte, apesar da correria das crianças no dia anterior, não estava nada partido nem fora do sítio. No entanto, é algo recorrente sempre que os meus sobrinhos vêm cá a casa, as paredes estavam marcadas como se tivessem deixado vultos. Não entendo como fazem aquilo, provavelmente deixam rastos de tinta que se solta da roupa ao se arrastarem pelas paredes. Também me deixaram pequenas mãozinhas marcadas nos vidros das portas, marcas gordurosas que não deixaram de me transmitir uma mensagem de amor.

21
Fev26

Lençóis

Há dez dias, vi nos lençóis, junto à cabeceira e do eu lado da cama, várias pintas de sangue. Reparei nelas no final da manhã, quando me lembrei de pôr ordem no quarto. Corri para o espelho, mas não vi nada no meu próprio rosto. Teria sangrado pelo nariz ou pelos ouvidos? Senti mais vergonha do que medo, e não contei nada ao N.. Poucos dias depois, ele tinha na nuca umas pequenas elevações avermelhadas, umas a seguir às outras, que lhe causavam comichão. Foi nessa altura que me lembrei que talvez fosse importante partilhar sobre os pequenos pontos de sangue que vi do meu lado da cama. Ao contrário do N., não fiquei com marcas, mas é certo que fui mordida e, provavelmente, por uma pulga, disse-me ele, «tens uma pulga nos lençóis, só pode ser». Eu, que nunca vi uma pulga, fiquei apavorada. Com a lanterna do telemóvel lá tentou encontrar a pulga ou outro bicho do género e nada. Os lençóis foram para lavar, mas a comichão pelo corpo não nos largou mesmo assim. A gata foi tosquiada e tomou banho no veterinário, no dia seguinte, e eu voltei a mudar os lençóis da cama. Passados poucos dias, o N. acordou mordido novamente pelo tal bicho que sabia esconder-se bem. Os lençóis foram novamente para lavar e fui até à farmácia onde me aconselharam um spray caro mas que prometia eficiência. Assim foi, em casa tudo o que era tecido foi borrifado com isso, sem dó nem piedade pelo minúsculo ser que se alimentava de nós há dias. Nessa noite, não sentimos comichão, consegui ter uma noite seguida a dormir sem acordar com necessidade de me coçar e o N. não voltou a ter registos no corpo. Na farmácia, a farmacêutica tinha-me dito ser muito normal os gatos trazerem para dentro de casa uma pulga de vez em quando. Perante esta informação, Maria Joaquina não tem ido para o jardim e, ao contrário do que esperava, tem andado mais serena.

Amanhã, não estarei por aqui. Faço anos, estou cada vez mais crescida, mas, no sábado a seguir, contarei como foi o meu dia.

15
Fev26

Imaturidade social

A sociedade tem-se tornado infantil de forma geral, está presa numa imaturidade emocional que se vê na área política, profissional, na comunidade, na vida familiar, e entre amigos. Esta imaturidade é alimentada diariamente uns pelos outros através da presença física, como no local de trabalho, por exemplo, ou através de programas televisivos ou de rádio. Talvez se pense que ter comportamentos e conversas imaturas se trate de uma espécie de elixir da juventude. No entanto, as crianças pequenas são obrigadas a comportarem-se como adultos, a estarem bem sentadas, a serem bem comportadas, não podem dizer asneiras nem terem pensamentos abstratos, não devem falar alto muito menos berrar, e devem estar compenetradas no que têm de fazer com uma carga horária que se assemelha a trabalho infantil, sem muito tempo para brincarem, para serem crianças. Por outro lado, são superprotegidas ao mesmo tempo que os telemóveis e tablets são as suas amas que fazem com que as suas mentes sejam contaminadas por vídeos que pouco estimulam a sua inteligência. Os pais das crianças são adultos que não tiveram esta infância e adolescência, mas as suas conversas são fúteis, superficiais, tontas, próprias de programas de reality shows. Uma vez, um sociólogo disse-me que as pessoas que participam nestes programas são a representação da maioria dos portugueses. Na altura, não quis acreditar, mas a verdade é que qualquer um de nós que faz parte desta experiência social que é a vida, é exposto aos estímulos exteriores. Se os estímulos forem estúpidos, mais próximos estaremos da estupidez; se os estímulos forem construtivos, mais próximos estaremos de alguma profundidade, e é por isso que prefiro os livros a pessoas.

 

Nota: aos sábados e domingos estarei por aqui.

14
Fev26

Queixas

Voltando ao assunto que ficou por continuar há duas semanas, tenho constatado uma infantilidade em algumas pessoas com idade para terem juízo em relação aos próprios pais, falo de pessoas com mais de quarenta anos, ou até de pessoas com mais de 70 anos cujos pais, evidentemente, já cá não se encontram. Queixam-se, as suas memórias estão repletas de queixas. Cada um tem as suas queixas, das mais absurdas às mais traumáticas. Também já fui assim. De que me queixava? Dos meus pais me vestirem com roupas que eram do meu irmão Luís, quatro anos mais velho, até aos dez anos. Nos registos fotográficos, pareço um menino de cabelo comprido. Durante a semana, vestia a farda da escola, mas no resto do tempo vestia a roupa do meu irmão que de feminina não tinha nada. Sempre que olhava para estas fotografias, ficava incomodada, por vezes, zangada com os meus pais por uma coisa passada há três décadas. Agora, ignoro tranquilamente este absurdo. Outra coisa que me deixava até há pouco tempo magoada, foi a minha mãe ter tido o meu irmão Filipe apenas um ano após eu ter nascido. Que colo poderei ter tido no início da minha vida de uma mãe grávida e que teve um bebé logo a seguir, antes de ter completado dois anos sequer? Deve ter sido muito pouco, e essa ausência, esse vazio ficou gravado no meu peito. No entanto, agora que me posso dizer adulta emocionalmente, penso que as coisas são como são, pior foi com o meu irmão Luís que a partir dos quatro anos viu-se com a atenção da mãe reduzida a um terço, com sorte, mas teve o pai que era quase todo só para ele. Talvez o mais sortudo em relação à atenção da mãe, tenha sido o nosso irmão Henrique, nascido cinco anos após o Filipe. Esse teve todo o colo da mãe, por completo, e parece tê-lo até hoje. Mas o Henrique queixa-se da falta que teve do pai, que sempre passou mais tempo com o Luís e o Henrique, enfim, todos têm as suas queixas.

Depois, também ouço queixas vindas de pessoas cuja idade se pode arredondar para um século sobre os próprios pais, o desespero que ainda têm em encontrarem respostas sobre os seus comportamentos. Não há respostas, têm de aceitar que não têm de encontrar respostas porque essa vida não é a deles, foi a de outros. O meu pai queixa-se por ter sido criado por uma tia quando os pais passaram por dificuldades financeiras e que essa tia o obrigava a fazer a cama e a arrumar o quarto quando tinha empregada em casa, afirma que o fazia para o constranger à sua situação da altura. Este género de queixas, para mim, não fazem qualquer sentido, parecem vindas de alguém preguiçoso e desarrumado. Outro exemplo, a mãe do N. não entende por que a própria mãe era tão agressiva, por que lhe batia em pequena, por que a fechava num quarto escuro, e ainda hoje sofre com isso. Apetece-me dizer-lhe que provavelmente a sua mãe era maluca, uma desequilibrada, e que teve a pouca sorte de ter calhado ser sua filha, uma questão de probabilidade da qual não teve qualquer culpa.

As queixas que me chegam, ora mais tontas, ora mais complexas, são vindas de pessoas privilegiadas que não sabem o que são verdadeiros traumas. Também poderia continuar a chorar e a sofrer com as minhas próprias queixas, mas fartei-me disso, foi uma decisão que tomei para mim, deixar de pensar, de sofrer com coisas que me fugiram do alcance, com coisas que não foram decisões minhas, com coisas que tendo tido reflexo direto na minha vida pertencem, na verdade, à vida de outras pessoas. É tudo relativo. Decidi crescer. Não quero dizer que quando estou com a minha mãe e o meu irmão Filipe ao mesmo tempo não sinta uma espécie de dor, de ciúmes talvez, mas já não deixo que me atinja, reparo no que sinto e deixo passar, aceito ter-me sido roubado todo o colo em bebé. Esta frase parece tão infantil, mas foi o que aconteceu, foi o que a circunstância da vida da minha mãe naquela altura provocou, e, como se costuma dizer, é a vida, e a vida continua, não podemos ficar lá atrás. 

Mas estas são as críticas que fazemos aos outros, também há as críticas que nos fazem a nós, que surgem do seio da própria família e estas, como se sabe, são as que têm mais poder de nos afetar. Lembrei-me agora do último fim de semana em que estive em casa dos meus pais e do meu pai ter comentado, depois de ter ido com ele fazer uma pequena compra à mercearia lá perto, que não deveria ter chamado à atenção a uma mulher que se colocou à nossa frente na fila para pagar, que fui rude, desagradável. Disse-me aquilo como se ainda fosse uma criança. Não respondi, raramente respondo a comentários destes vindos do meu pai. Também há algumas semanas, num almoço de família, uma tia comentou, sobre um artigo que escrevi para um jornal, que não deveria partilhar de forma tão íntima os meus pensamentos. Olhei para ela espantada. São dois exemplos de pessoas que ainda não perceberam que o papel delas como meus educadores já se extinguiu há décadas, e que agora comentários deste género são sentidos como falta de respeito, mas, no entanto, prevalece o complexo de superioridade deles em relação a mim, algo que só reparei há pouco. Neste momento, vejo as coisas de forma clara, a maturidade traz clareza. Cada um deve ocupar o seu próprio lugar. Não sinto os meus pais e tios como pais e tios, sinto-os como adultos exteriores a mim, não são o meu prolongamento, nem eu sou prolongamento deles. Não estou em dívida com nada, dei-lhes o melhor de mim, dou-lhes o melhor de mim, e tiveram-me nas suas vidas porque assim o desejaram; não me devem nada também, fizeram o melhor que sabiam com as ferramentas que tinham; não lhes cobro nada a não ser respeito e consideração; que não me cobrem nada também a não ser o mesmo, respeito e consideração, amizade sincera. Esta foi uma das grandes descobertas que fiz ao entrar na vida emocionalmente adulta, tratar e ser tratada por igual, sem títulos, categorias patriarcais, matriarcais, sem género, sem idade, de igual para igual, com os mesmos direitos de respeito e consideração. Mas isto é uma coisa que se tem perdido a nível da sociedade em geral, e este assunto ficará para o texto de amanhã.

 

Atenção! Este blogue migrará para aqui: https://ameliagouge.blogspot.com/ Obrigada a toda a equipa da Sapo Blogs.

08
Fev26

Final de tarde

Ontem, gostaria de ter vindo até aqui, mas não tinha internet, nem luz. Estava a chegar a casa, vinda do minimercado perto e, de repente, ficou tudo negro na rua, numa chuva que se mostrou violenta entre o vento desenfreado. Por três minutos não consegui estacionar o carro na garagem por ter portões elétricos. Com a lanterna do telemóvel na mão, acendemos velas por toda a sala, uma vantagem prática de ser amante de velas, quando são precisas na falta de luz, não faltam cá em casa. Cozinhar também não podíamos, o arroz caldoso de legumes que me apetecia fazer teve de ficar sem efeito, as placas do forno são elétricas. Mas, se súbito, a casa vibrou com estrondo. Eu e o N. ficamos a olhar um para o outro, o que seria? No curto espaço de tempo em que a eletricidade voltou, ele aproveitou para estacionar o meu carro na garagem, e foi aí que reparou que os painéis solares da casa se arrastaram até à berma da cobertura e ficaram na frágil posição de caírem lá de cima, bastava uma rajada mais forte para que aquela estrutura pesada se estatelasse com força onde calhasse. O N. quis ir à cobertura da casa para pousar a estrutura e arrastá-la mais para dentro. Disse-lhe que não, que chamaria a GNR se o tentasse fazer. Nunca se desafia a força da natureza. A luz voltou a ir abaixo. A robustez do vento lá fora e os sons que se escutavam eram aterradores. Depois do jantar possível, umas tostas com queijo e fruta, deitamo-nos e esperamos até hoje de manhã. Apesar do sono interrompido pela tempestade, várias vezes durante a noite, correu tudo bem, mas a tempestade Marta sentiu-se no Norte como as outras não se sentiram.

Enfim, a vida continua, e, daqui a pouco, vou votar no único voto que merece ser considerado.

01
Fev26

Tímida e insegura

Por falar em larvas (no último texto), há uma coisa que me espanta desde que iniciei esta fase tardia da vida adulta, a vida adulta no sentido de amadurecimento emocional. Aliás, as descobertas têm sido várias. Por onde começar? Vou começar por aquela que me fez iniciar este texto. Sempre me considerei uma pessoa tímida e insegura, mas, analisando os meus comportamentos, nada confirma a minha timidez e insegurança, pelo contrário. Lembro-me dos trabalhos que apresentava na escola, a filosofia, por exemplo, sozinha “ no quadro”, como se dizia, será que ainda se usa a expressão “vem até ao quadro”? Nesses momentos, não era nada tímida, nunca fui tímida nas situações que me entusiasmavam e causavam interesse. No entanto, por que acreditava ser tímida? Porque acreditei ser tímida até muito tarde? Porque sempre ouvi dizer, desde pequena, de algum adulto, que era uma criança tímida, porque talvez não me apetecesse falar com estranhos e isso teria de ser justificado, essa falta de delicadeza que se espera e exige das crianças. Em relação à insegurança, posso concluir que fui exatamente o oposto, apesar de ter tido momentos de grande incerteza na vida, mas viver é mesmo isso, não ter todas as certezas. Posso dar um exemplo, quando ainda não tinha completado o ensino secundário tive uma professora de História que me dava, em todos os testes, a nota 13. Quando eu conferia a correção do teste, levantava-me, no final da aula, para ir ter com ela e mostrar-lhe que não tinha cotado uma ou duas perguntas. Ela nem olhava, virava o teste, riscava o 13 e escrevia 14 ou 15 valores, ao calhas. Depois do segundo teste com esta professora, fui à secretaria da escola e anulei a disciplina, a nota de História seria a da prova global que, na altura, se fazia a nível nacional. Na aula seguinte, avisei a professora de que apesar de ter anulado a sua disciplina continuaria a frequentar as suas aulas. Na altura, aquela professora com enorme verruga encostada a uma das abas da narina disse-me: “Amélia, que perigo confiares a nota num único exame, vais-te arrepender”. Tirei 17 valores no exame, não me arrependi, deu-me ainda mais força para continuar a acreditar naquilo que considero o que é certo, a acreditar em mim. Depois disto, muitos outros exemplos se seguiram, mas continuei a acreditar sempre que era uma pessoa tímida e insegura, era uma certeza gravada numa espécie de cartão de cidadão da minha personalidade. Porquê? Porque sempre ouvi “olha que te vais arrepender”, “não faças isso”, “cala-te”, “isso não se diz”. A crítica dos outros sempre presente, como vespas. As críticas alheias e como se lida com elas na vida adulta, outra descoberta que fiz, mas deixo este assunto para o próximo texto.

 

Nota: aos sábados e domingos estarei por aqui.

31
Jan26

Tampões nos ouvidos

Numa pastelaria, perto de casa. Bebo um café e como uma baguete aquecida com manteiga. Trouxe o livro A mulher que prendeu a chuva, de Teolinda Gersão como companhia, como excelente companhia. Entre o som da porta de vidro a bater com o temporal, a música vinda do café e o manejar dos talheres lavados a serem arrumados, tenho a necessidade de pegar nos tampões para os ouvidos que andam sempre comigo. Mas não foi devido a nenhum destes sons que estavam mudos para mim durante a leitura, foi porque comecei a ouvir, provavelmente de uma televisão ligada na cozinha, uma espécie de discurso que tenta lavar o cérebro pelo tom de voz escolhido, a forma de falar, parecia uma melodia hipnótica, que “Portugal é isto e aquilo”, que “os portugueses merecem isto e aquilo”, e quem fala é um homem que promete mudar e conseguir tudo, tudo. Percebi então que quem fala é o candidato não a Presidente da República, mas o candidato ao poder. Foi aí que me lembrei de colocar os tampões de ouvidos, porque me parece que ouvir discursos destes, altamente manipuladores enquanto exercemos coisas das nossas vidas, nos penetram no inconsciente sem autorização como larvas que lá se instalam e multiplicam.

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Amélia de Valois Gouge é um heterónimo da escritora Ana Gil Campos.